domingo, novembro 27, 2011

Findando a semana...

Este foi um final de semana de muitas aprendizagens do cotidiano.
Das mais sensoriais e sedutoras, as mais grosseiras e decepcionantes.
No início do fim de semana, em conversa com um amigo, lembrei de um dos meus primeiros escritos para o cotidiando. Falava sobre um barulho nada usual e, sendo assim, tinha haver com os sentidos, com aqueles pequenos detalhes que precisamos nos concentrar para perceber nesta louca vida que temos.
Brincando com as palavras, acabamos conversando sobre sensações e ele conseguiu trazer algo desconhecido para mim até aquele momento: o som da barba roçando a pele. A mistura de sentidos é surpreendentemente sedutora e deixa a imaginação livre para arriscar esse som e o momento de ouvi-lo.
O final de semana seguiu seu passo e mais adiante me deparei com um dos limites mais incômodos - para mim - do nosso sistema econômico (capitalismo): as barreiras ao sonho, a vida, às emoções. Diante da sobrevivência cotidiana, medida por centavos e avaliada a mão de ferro por uma suposta boa conduta moral e ética, alguns dos nossos companheiros e companheiras têm seu horizonte ceifado. Sua inteligência, clara a muitos olhares, esbarra nas fronteiras do capital necessário a sobrevivência e de uma necessidade de autoafirmação a partir de um "orgulho honrado" por vezes transformado em brasa.  O sorriso cativante transforma-se numa faca afiada, cheia de uma malícia venenosa. Assim, viver um sonho, intenso e sagaz, deixa de ser provável, ou sequer possível.
"...A alegria vira ansiedade e perde o encanto doce de te surpreender de verdade...".
E quando já achava que não havia mais nada que o cotidiano pudesse me trazer de novo, vem o universo e julga e condena para sempre a falta de cuidado, de zelo, de experiência. O outro não pode ser tua medida de aprovação, mas tem sempre que ser a medida do respeito e desvelo necessários para seguirmos a caminhada. Para isso, é preciso "concentração e muito ciso", como já dizia o poeta.
Sigamos nos distraindo e vivendo, sempre, um grande amor!
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sexta-feira, novembro 25, 2011

tablets, bebês e outros detalhes...

Eu sou uma pessoa que gosta de tecnologia.
Gosto e me dou bem com ela.
Minha próxima compra certamente será um tablet. Assim que eles tiverem com mais portas usbs. Ou pelo menos era até a reflexão de hoje...
Estava eu numa rotina muito pouco usual.. Às nove horas da matina em direção a Universidade Rural, onde dou aula apenas à noite. Vinha do Geraldão, seguindo pela Av. Recife, quando avistei num dos outdoors :
"Num colégio atual os alunos usam tablets".
A primeira vista era um simples anúncio, se não fosse pela minha imaginação fértil durante um sinal vermelho. De repente comecei a viajar no comercial e pensar como aquele surto de tecnologia poderia refletir na educação. Veio a minha mente, então, uma cena incomum: uma sala de jardim de infância onde em vez de  lápis as crianças tinham teclados. Fiquei imaginando aqueles olhinhos curiosos já diante de uma tela brilhosa, mirando as letras, números e símbolos surgindo a cada "tec". Será possível?
Não sei, mas já sinto até falta das tarefas de caligrafia.
Se o livro poderia acabar com a chegada dos virtuais... por que não a "escrita à mão"?
Coisas do cotidiano.. só para pensar..
Os outros detalhes eu esqueci. Fica para outras madrugadas...

quinta-feira, novembro 17, 2011

Do gosto...

Hoje havia pensado em refletir sobre o isolamento (na verdade ontem...).
O isolamento que os carros me parecem fazer da vida, ou do Real, num sentido bem zizekiano.
Deixarei este pra depois para falar do gosto... do gosto da poesia, do gosto da arte.
Recebi um e-mail de um amigo querido que trazia uma poesia atestando como de autoria de um dos
meus prediletos: Mário Quintana.
Após ler a poesia senti um ruído... algo não se encaixava. Como de praxe, cascavilhei a internet e descobri o poema real. Ele nem era como alguns por aí que destoam completamente do poema verdadeiro ou simplesmente não são... Esse tinha apenas modificações duvidosas e um final decididamente não-quitaniano.
Descoberto o equívoco, enviei para meu amigo com outros poemas gostosos... mas ficou uma questão:
não sendo uma conhecedora profunda deste poeta, como consegui identificar nesta e em outras vezes esse ruído?
Uma conversa com um iluminado respondeu minha questão rapidamente: eu sei o gosto da poesia do Quintana.
Se nos permitem uma licença sensível, farei isso: misturarei os sentidos.

Talvez a arte seja exatamente isso... a possibilidade de provocar os sentidos e nos permitir misturá-los - seja na figura de linguagem, seja fora dela...
Assim, conhecer Quintana, ou um pintor, ou um dançarino, ou um outro criador parece ser conhecer aquela marca, evidente ou não, que os faz singulares aos nossos sentidos. E em se tratando de poesia, é mais difícil ainda de decifrar qual é o sentido que nos toca...o olfato ou o paladar...a visão ou a audição... o tato... todos.. ou nenhum...

Nessas horas tardias, permito-me correr desse enigma. Ficamos acertados assim...
Eu sei o gosto, seja lá de onde ele for.

sábado, julho 02, 2011

Pedacinhos de cotidiano...

Desde a última vez que escrevi, vim guardando alguns momentos do cotidiano que me chamaram atenção. O primeiro, da ordem de lembrança e não necessariamente de acontecimento, foi num dia de chuva, quando estava indo para o trabalho. Quando ia pela avenida pensava em como aquela chuva era tão prejudicial para a cidade e seus transeuntes. Desde as que enchem de água, até o fato mesmo de sair na chuva, levar guarda-chuva, ficar molhado no trabalho. Cheguei a sentir a angústia de ficar molhada tendo que trabalhar e claro, lembrei de Elias, e o aumento da sensibilidade. Fiz uma transposição (bastante ensaística e amadora) da violência para a chuva.
Uma imagem, entretanto, quebrou meu pensamento em vários pedaços. Se durante o percurso vi várias pessoas se abrigando da chuva, se chateando com a chuva e tentanto contorná-la. Parada no sinal, um grupo de crianças atravessava alegremente. Como se nada tivesse acontecendo. Seus sorrisos me fizeram lembrar do meu sorriso, e do enorme prazer que era tomar banho de chuva, no quintal de casa, na minha infância.
Lembro-me, ainda que opacamente, de colocar um vestido azul estampado, e ir para o quintal no meio da chuva. O prazer era indescritível.
O sinal abriu e eu tive um longo dia de trabalho.
Um outro momento registrado foi quando estava em casa. Não me lembro exatamente o motivo, mas eu implorava por silêncio. Buscava-o com profundo empenho, mas sem sucesso. Quando chegou a noite, quase madrugada, o silêncio parecia chegar... Mas.. a cidade não deixava. Se nos arredores tudo se acalmara pelo avançado da hora, a cidade continuava repleta de sons. Dos carros, principalmente, ou mesmo do vento.
Desisti do silêncio. Contentei-me com o sono.
E hoje, vindo para casa, algo me chamou atenção. Um desses outdoors eletrônicos anunciava que ali eram contabilizadas as pessoas mortas no trânsito. Passei rápido e nem pude ver os números. Mas logo lembrei dos outros deste tipo que estão espalhados pela cidade. Uns relativos a impostos, outros ao número de homicídios, e agora este, referente às mortes no trânsito.  Este método me inquieta bastante. A ida pra sociologia me fez questionar muito os números, principalmente quando eles se tornam dados. No caso das mortes de trânsito, por exemplo, se esondem por trás daqueles números milhares de histórias de vida e de possibilidades de interpretação. Quem são estes números? Eram pedestres ou motoristas? Tinham ingerido álcool ou não? Eram homens, mulheres, crianças, idosos? Eram ricos, pobres, negros, brancos? Lutavam por sua vida ou já haviam desistido dela? Despediram-se dos seus antes de partir? Morreram na hora ou no hospital? Este número mostrado equivale a quanto em termos populacionais? E em termos de classe social, gênero e raça? Tem alguma ligação entre essas variáveis?
Elias tem um livro chamado "A Solidão dos Moribundos" em que ele disserta um pouco sobre a morte e o envelhecimento. Ele mostra como a nossa relação com a vida está relacionada com a nossa relação com a morte e como isso afeta nossa relação com o envelhecimento. Apesar de achar que nos esforçamos por ressignificar nossa relação com o envelhecimento, nossa relação com a morte continua confusa. A lamentamos, a evitamos e a condenamos. Dificilmente vemo-la como parte da vida. Apenas lutamos com toda força para afastá-la, mesmo que inevitavelmente ela se aproxime cada dia mais.
Se a função desses monitores é sensibilizar para os números ou para a morte, eles apenas reforçam uma relação linear e limitada seja dos números, seja da morte. O choque trazido pelos números ou pelo próprio monitor num primeiro momento, vira banalidade no momento seguinte. E o que se faz disso?  Vou deixar essa resposta
para a próxima vez que eu passar pelo outdoor.

sábado, junho 18, 2011

A falta do cotidiano...

Desde o último olhar sobre as rugas que o cotidiano me faz falta.
A rotina do dia a dia consome o tempo de tal forma que os pequenos detalhes permanecem
despercebidos. Ainda que algumas coisas possam chamar atenção (como uma camisa rosa
bebê ou um mesmo um sorriso), nada que os sentidos decifrem como elementos do cotidiano
prontos a serem redescobertos.
Sons, cores, atitudes, tudo se passou nestes últimos dias como coisas de sempre, sem espanto.
Será que minha habilidade de estranhamento está por um fio devido ao cansaço dos últimos tempos?
Será que algo desvia minha atenção, incapacitando minha visão, tato, audição e olfato de sentir
e alcançar aquele instante único que geralmente nos foge?
Ou será que é apenas a boa e velha TPM preenchendo de hormônios todas as dimensões da vida feminina, inclusive a sensibilidade?
Várias explicações possíveis, nenhuma delas muito sociológicas (ainda que não deixe de ter relações sociais envolvidas).
Este post é assim... Sobre falta...
A sensação da falta.
Talvez este tenha sido o grande elemento do cotidiano presente (mesmo tratando-se de uma ausência).
E como não podia deixar de ser.. ele fica por aqui, deixando essa sensação de falta..

domingo, junho 12, 2011

Das rugas e outras cotidianices...

Meu projeto de escrever diariamente sobre o cotidiano ruiu.
Felizmente, porém, a reflexão permaneceu.

Ainda que eu não tenha conseguido escrever cotidianamente,
passei a observar mais o meu dia a dia; tornei segundos verdadeiras horas inteiras
e agucei meus sentidos a ponto de escutar o que geralmente nos passa despercebido...
...como o barulho do pincel do esmalte nas unhas.
Sim... o barulho do pincel do esmalte nas unhas. Você já conseguiu escutar?
Foi uma sensação um tanto interessante.
Numa noite do fim de semana passado resolvi fazer as unhas para me preparar para a semana que vinha recheada. Já passavam das 22h e me sentei no banheiro com minha cestinha.
O processo se deu como de costume: primeiro tirar o esmalte anterior, depois cortar, em seguida lixar, tirar um pedacinho ou outro de cutícula, para então começar a pintar.
Não lembro exatamente, porque já faz quase uma semana do ocorrido, mas quando ia pelo terceiro dedo da mão esquerda, na pincelada, escutei...

A noite estava bem calma. Mainha e pingo já estavam dormindo (e provavelmente o vizinho de cima também, porque nenhum som vinha de lá). E isso me possibilitou escutar...
Foi um barulho interessante que se reunia a sensação do esmalte frio tocando na unha.
O barulho era de algo que meio que se arrastava...
 Possivelmente a quantidade de esmalte não fora suficiente e alguns pelos do pincel estavam mais secos, o que os fez atritar.

As demais pinceladas se seguiram com a lembrança daquele barulhinho. Repiti-lo não foi possível. Parecia que os ouvidos não estavam mais atentos ou a noite já não estava tão calma.
A sensação ficou, assim como a vontade de partilhá-la.

Porém, esta não foi a única sensação da semana que gerou textos de consciência. Outros dois, que podem ser agrupados por estarem relacionados ao mesmo tema, chamaram-me atenção. O primeiro (cronologicamente mesmo) foi durante um evento, quando caminhava para ir para o carro e me deparei com duas jovens. Elas eram altas (o calçado ajudava), brancas e seus cabelos eram longos e pretos.
Foi exatamente o cabelo que me chamou a atenção. Os cabelos delas eram quase que exatamente iguais! Ambos coloridos artificialmente, alisados artificialmente e do mesmo tamanho.
Apesar de não ser algo tão difícil de encontrar, chamou minha atenção neste dia. O primeiro pensamento era: "Por que jovens bonitas tinham que almejar serem iguaizinhas?". Eu poderia ter olhado para outros detalhes como maquiagem, roupa, estilo de andar, sei lá. Talvez encontrasse das mesmas "igualidades". A questão seria a mesma: "Por que caminhar para o igual?".

Ontem, diante do espelho, comecei a reparar minhas rugas. O sorriso, há algum tempo, começa a apresentar algumas linhas de expressão a mais do que outrora. Continuei olhando e uma lembrança me veio a mente: meses antes eu havia feito esta mesma ação de reparar os traços a mais no meu rosto. Naquele momento isso me doeu, fez com que eu questionasse minha beleza, meus cuidados comigo e com minha aparência. Interessante que dessa vez foi diferente. Olhei para o espelho, sorri algumas vezes mais e cheguei a dizer algo como "marcas das experiências", de uma vida bem vivida (ou bem sorrida).
A atitude mental me fez refletir sobre como poderíamos olhar para esse fato. Seria apenas algo psicológico, ligado a minha auto-estima, que faria muito sentido tendo em vista a série de mudanças (boas) que vieram ocorrendo de lá para cá?! Certamente, isso influenciou.
Minha mente, porém, detida também nos preparativos para a disciplina de Introdução à Sociologia que vou ministrar neste final de semestre, levou-me a questionar o aspecto sociológico da questão.
Sim... mas o que está para além da auto-estima e segurança de si neste caso? Será que outras pessoas com aumento do grau de auto-estima não poderiam olhar e se manter inquietas quanto a esses traços?
Possivelmente sim.
O que me faz "desinquietar-me" do fato, também está ligado aos valores e crenças que socialmente partilho. O estranhamento dos "cabelos iguais" logo acima reflete, no mínimo, um olhar atento a homogeneização das aparências, a padronização dos corpos, a hipervalorização da estética juvenil. Sob esse prisma, a ordem de estar bonita de acordo com as referências hegemônicas no campo social em que vivo podem ser subvertidas, deixando-me mais livre das coerções sociais. Outro elemento que conflui é o fato de conviver cotidianamente com pessoas que procuram quebrar esta hegemonia.
Assim, minha reação a minhas charmosas rugas são fruto tanto do que sou, quanto do que sou com os outros (e eles comigo).

Pois é isso. Sou o que sou, pelo que sou e pelo que somos.

Inté!

sexta-feira, junho 03, 2011

Folhas...


Hoje parei para ver algo que muito me fascina... a dança das folhas.
Você já esteve recostado ao ombro de alguém e reparou as árvores lá fora, com

suas folhas dançantes ou estáticas?

Eu moro no quarto andar e ao abrir minha janela, nas manhãs em que faz sol - que é

quando faço realmente questão de abrí-la - vejo um espetáculo de movimento e luz.

As árvores da casa do vizinho quase se dobram ao meu olhar.

A ventania cria movimento entre as folhas e galhos, traçando uma verdadeira coreografia.

Eu fico parada, apreciando, tentando aprender.

E ao fechar a janela... sou invadida pela sensação de vazio, um vácuo interior

diante das folhas em euforia.

Elas gritam para mim

num silêncio ensurdecedor.


(a foto chega depois)





terça-feira, maio 31, 2011

Cotidiando

Hoje caminhando (dirigindo na verdade) para o trabalho, conversava comigo mesma sobre meu dia a dia, cheio de tarefas, reuniões, ligações e muita, muita falta de memória. É como se os detalhes passassem despercebidos. E isso me inquieta.
Durante a conversa, questionava-me sobre como gosto de escrever e desde a época do "Opinião Pública", site de um amigo em que eu sempre rabiscava uns textos, não havia mais escrito em prosa, um pouco em verso (livre) e um pouco mais de artigos acadêmicos.
Foi assim que surgiu a idéia de "cotidiando". Tentar refletir um pouco as coisas que se passam ao nosso redor e por pouco, muito pouco, podem seguir despercebidas. Seja um dia de sol, um abraço forte, uma frase bem (ou mal) colocada ou mesmo um perfume, quem sabe uma poesia.
Hoje, em especial, parece-me que a idéia preencheu o cotidiano, roubando quaisquer memórias que me pudessem gerar uma reflexão.
Foi um dia de celebrar acertos e, quem sabe, retomar o caminho das letras.

Uma foto do cotidiano para uma poesia cotidiana...


Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida…
                                                                            (Mário Quintana)