Meu projeto de escrever diariamente sobre o cotidiano ruiu.
Felizmente, porém, a reflexão permaneceu.
Ainda que eu não tenha conseguido escrever cotidianamente,
passei a observar mais o meu dia a dia; tornei segundos verdadeiras horas inteiras
e agucei meus sentidos a ponto de escutar o que geralmente nos passa despercebido...
...como o barulho do pincel do esmalte nas unhas.
Sim... o barulho do pincel do esmalte nas unhas. Você já conseguiu escutar?
Foi uma sensação um tanto interessante.
Numa noite do fim de semana passado resolvi fazer as unhas para me preparar para a semana que vinha recheada. Já passavam das 22h e me sentei no banheiro com minha cestinha.
O processo se deu como de costume: primeiro tirar o esmalte anterior, depois cortar, em seguida lixar, tirar um pedacinho ou outro de cutícula, para então começar a pintar.
Não lembro exatamente, porque já faz quase uma semana do ocorrido, mas quando ia pelo terceiro dedo da mão esquerda, na pincelada, escutei...
A noite estava bem calma. Mainha e pingo já estavam dormindo (e provavelmente o vizinho de cima também, porque nenhum som vinha de lá). E isso me possibilitou escutar...
Foi um barulho interessante que se reunia a sensação do esmalte frio tocando na unha.
O barulho era de algo que meio que se arrastava...
Possivelmente a quantidade de esmalte não fora suficiente e alguns pelos do pincel estavam mais secos, o que os fez atritar.
As demais pinceladas se seguiram com a lembrança daquele barulhinho. Repiti-lo não foi possível. Parecia que os ouvidos não estavam mais atentos ou a noite já não estava tão calma.
A sensação ficou, assim como a vontade de partilhá-la.
Porém, esta não foi a única sensação da semana que gerou textos de consciência. Outros dois, que podem ser agrupados por estarem relacionados ao mesmo tema, chamaram-me atenção. O primeiro (cronologicamente mesmo) foi durante um evento, quando caminhava para ir para o carro e me deparei com duas jovens. Elas eram altas (o calçado ajudava), brancas e seus cabelos eram longos e pretos.
Foi exatamente o cabelo que me chamou a atenção. Os cabelos delas eram quase que exatamente iguais! Ambos coloridos artificialmente, alisados artificialmente e do mesmo tamanho.
Apesar de não ser algo tão difícil de encontrar, chamou minha atenção neste dia. O primeiro pensamento era: "Por que jovens bonitas tinham que almejar serem iguaizinhas?". Eu poderia ter olhado para outros detalhes como maquiagem, roupa, estilo de andar, sei lá. Talvez encontrasse das mesmas "igualidades". A questão seria a mesma: "Por que caminhar para o igual?".
Ontem, diante do espelho, comecei a reparar minhas rugas. O sorriso, há algum tempo, começa a apresentar algumas linhas de expressão a mais do que outrora. Continuei olhando e uma lembrança me veio a mente: meses antes eu havia feito esta mesma ação de reparar os traços a mais no meu rosto. Naquele momento isso me doeu, fez com que eu questionasse minha beleza, meus cuidados comigo e com minha aparência. Interessante que dessa vez foi diferente. Olhei para o espelho, sorri algumas vezes mais e cheguei a dizer algo como "marcas das experiências", de uma vida bem vivida (ou bem sorrida).
A atitude mental me fez refletir sobre como poderíamos olhar para esse fato. Seria apenas algo psicológico, ligado a minha auto-estima, que faria muito sentido tendo em vista a série de mudanças (boas) que vieram ocorrendo de lá para cá?! Certamente, isso influenciou.
Minha mente, porém, detida também nos preparativos para a disciplina de Introdução à Sociologia que vou ministrar neste final de semestre, levou-me a questionar o aspecto sociológico da questão.
Sim... mas o que está para além da auto-estima e segurança de si neste caso? Será que outras pessoas com aumento do grau de auto-estima não poderiam olhar e se manter inquietas quanto a esses traços?
Possivelmente sim.
O que me faz "desinquietar-me" do fato, também está ligado aos valores e crenças que socialmente partilho. O estranhamento dos "cabelos iguais" logo acima reflete, no mínimo, um olhar atento a homogeneização das aparências, a padronização dos corpos, a hipervalorização da estética juvenil. Sob esse prisma, a ordem de estar bonita de acordo com as referências hegemônicas no campo social em que vivo podem ser subvertidas, deixando-me mais livre das coerções sociais. Outro elemento que conflui é o fato de conviver cotidianamente com pessoas que procuram quebrar esta hegemonia.
Assim, minha reação a minhas charmosas rugas são fruto tanto do que sou, quanto do que sou com os outros (e eles comigo).
Pois é isso. Sou o que sou, pelo que sou e pelo que somos.
Inté!
Nenhum comentário:
Postar um comentário