sábado, julho 02, 2011

Pedacinhos de cotidiano...

Desde a última vez que escrevi, vim guardando alguns momentos do cotidiano que me chamaram atenção. O primeiro, da ordem de lembrança e não necessariamente de acontecimento, foi num dia de chuva, quando estava indo para o trabalho. Quando ia pela avenida pensava em como aquela chuva era tão prejudicial para a cidade e seus transeuntes. Desde as que enchem de água, até o fato mesmo de sair na chuva, levar guarda-chuva, ficar molhado no trabalho. Cheguei a sentir a angústia de ficar molhada tendo que trabalhar e claro, lembrei de Elias, e o aumento da sensibilidade. Fiz uma transposição (bastante ensaística e amadora) da violência para a chuva.
Uma imagem, entretanto, quebrou meu pensamento em vários pedaços. Se durante o percurso vi várias pessoas se abrigando da chuva, se chateando com a chuva e tentanto contorná-la. Parada no sinal, um grupo de crianças atravessava alegremente. Como se nada tivesse acontecendo. Seus sorrisos me fizeram lembrar do meu sorriso, e do enorme prazer que era tomar banho de chuva, no quintal de casa, na minha infância.
Lembro-me, ainda que opacamente, de colocar um vestido azul estampado, e ir para o quintal no meio da chuva. O prazer era indescritível.
O sinal abriu e eu tive um longo dia de trabalho.
Um outro momento registrado foi quando estava em casa. Não me lembro exatamente o motivo, mas eu implorava por silêncio. Buscava-o com profundo empenho, mas sem sucesso. Quando chegou a noite, quase madrugada, o silêncio parecia chegar... Mas.. a cidade não deixava. Se nos arredores tudo se acalmara pelo avançado da hora, a cidade continuava repleta de sons. Dos carros, principalmente, ou mesmo do vento.
Desisti do silêncio. Contentei-me com o sono.
E hoje, vindo para casa, algo me chamou atenção. Um desses outdoors eletrônicos anunciava que ali eram contabilizadas as pessoas mortas no trânsito. Passei rápido e nem pude ver os números. Mas logo lembrei dos outros deste tipo que estão espalhados pela cidade. Uns relativos a impostos, outros ao número de homicídios, e agora este, referente às mortes no trânsito.  Este método me inquieta bastante. A ida pra sociologia me fez questionar muito os números, principalmente quando eles se tornam dados. No caso das mortes de trânsito, por exemplo, se esondem por trás daqueles números milhares de histórias de vida e de possibilidades de interpretação. Quem são estes números? Eram pedestres ou motoristas? Tinham ingerido álcool ou não? Eram homens, mulheres, crianças, idosos? Eram ricos, pobres, negros, brancos? Lutavam por sua vida ou já haviam desistido dela? Despediram-se dos seus antes de partir? Morreram na hora ou no hospital? Este número mostrado equivale a quanto em termos populacionais? E em termos de classe social, gênero e raça? Tem alguma ligação entre essas variáveis?
Elias tem um livro chamado "A Solidão dos Moribundos" em que ele disserta um pouco sobre a morte e o envelhecimento. Ele mostra como a nossa relação com a vida está relacionada com a nossa relação com a morte e como isso afeta nossa relação com o envelhecimento. Apesar de achar que nos esforçamos por ressignificar nossa relação com o envelhecimento, nossa relação com a morte continua confusa. A lamentamos, a evitamos e a condenamos. Dificilmente vemo-la como parte da vida. Apenas lutamos com toda força para afastá-la, mesmo que inevitavelmente ela se aproxime cada dia mais.
Se a função desses monitores é sensibilizar para os números ou para a morte, eles apenas reforçam uma relação linear e limitada seja dos números, seja da morte. O choque trazido pelos números ou pelo próprio monitor num primeiro momento, vira banalidade no momento seguinte. E o que se faz disso?  Vou deixar essa resposta
para a próxima vez que eu passar pelo outdoor.

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