Minha mãe tem uma brincadeira, que ela viu em algum filme ou novela, que ela fala de vez em quando: "cara de paisagem".
"Cara de paisagem" quer dizer aquela cara neutra, de quem não viu nada, não sabe de nada, que você ou outra pessoa faz em determinadas situações. É uma cara sem emoção, sem riso, nem choro, sem calor, nem frio, parada no tempo e no espaço, sem sobressaltos.
Eu diria que aqui, a paisagem assume um caráter estático, de fotografia sem apreciação, sem nenhuma agitação estética. Paisagem é simplesmente algo parado, sem vida, sem emoção. Trago essa ideia para realizar um contraponto com uma nova sensação que tive hoje: o gosto de horizonte.
Se buscarmos a definição de horizonte ao pé da letra, facilmente chegaremos a uma linha (quase reta) que separa o céu e o mar ou o limite que a nossa vista alcança em uma paisagem. Assim, sem sal, nem açúcar, o horizonte, semelhante a paisagem, fica ali parado; pode-se até recortar uma fotografia de revista, pegar uma régua, fazer um traço na separação do céu e do mar e dizer: Pronto! Aqui temos o horizonte. Meu horizonte, entretanto, é muito mais sensorial. Além de cor, ele tem cheiro, pele, sabor ... gosto.
Se me pedissem para explicar o horizonte, eu descreveria assim. Imagine uma pessoa numa praia, diante do céu e do mar. O vento bate forte no seu corpo, levando areia, gotículas de água e um cheiro forte de sal. Seus olhos piscam para manter-se hidratados e poder contemplar os azuis, os verdes, os brancos, os laranjas, e as tantas outras cores ali retratadas. O som das ondas não permite que o horizonte esteja parado. Ele ou ela com uma postura muscular ativa, apesar do corpo aparentemente estático, apreendem todo o movimento daquela paisagem ali parada, por meio dos sentidos. Por fim (ou no início, ou durante todo o momento), vem a sensação de fim não encontrado (infinitude), de grandiosidade, de completa impossibilidade de tocar, controlar, delimitar... Uma relação corporal mesmo, de sentir seu tamanho, seu peso, ver-se diante daquela enorme paisagem e sentir-se pequeno, incapaz de uma ação que altere aquele quadro, ali, dinamicamente parado diante dele(a).
É desse horizonte que falo.
E esse horizonte tem gosto.
E um gosto bom...
Hoje senti esse gosto de horizonte na boca. Sim, na boca. Que a licença poética me permita essa imagem: colocar um horizonte dentro da minha boca, passando em seguida pelo esôfago, até chegar no estômago e me alimentar completamente a alma. O horizonte tinha, então, um gosto de resignação, de conforto diante de uma absoluta (e consciente) falta de controle do corpo, dos pensamentos, dos sentimentos... Aquela sensação de impotência que temos diante de uma paisagem, era exatamente essa mesma impotência só que diante de mim mesma.
Eu estava simplesmente ali, diante de mim, completamente tomada por uma emoção que não me cabia, que era grande demais pro meus 1,63cm. Ou mesmo, apenas não me cedia a possibilidade mais remota de ação, de agir. Qualquer movimento, do corpo ou da mente, seria um grão de mostarda. Restava-me uma única opção, que fora realizada: simplesmente entregar-me...a essa sensação tão difícil de explicar...de horizonte, no céu da boca...
No céu da boca?!
Aí já é demais...
Pois então, só sei que foi bem assim...
Experimentei mais um sabor, nessa vida.
E ele é bem diferente da "cara de paisagem".
Gosto de horizonte.
Hummm...
Vou tentar criar um novo sabor de sorvete com ele.
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